Com a participação da artista:
Leonor Saunders.
"Oh my Dear” é uma exposição que nasce de uma conversa íntima entre a artista e a sua mãe, onde uma perda não realizada se transforma no impulso para um gesto de reconhecimento. O título — “Oh my Dear” — surge como uma subversão da expressão “oh my God”, deslocando o agradecimento do plano divino para o humano e devolvendo centralidade às relações afetivas como espaço de construção de sentido.
Distante de uma abordagem religiosa, a artista propõe antes um rito visual, no qual o retrato se afirma como dispositivo de presença. Mais do que representar indivíduos, estas imagens operam enquanto lugares de encontro, ecoando debates da arte contemporânea em torno da vulnerabilidade, da memória e da ética do olhar. Neste contexto, a exposição aproxima-se do pensamento de Roland Barthes, particularmente da ideia do retrato (fotografia) como testemunho simultâneo de presença e desaparecimento, expressão inevitável da consciência da perda.
O núcleo principal da exposição é composto por oito obras de grande escala, cada uma resultante de uma conversa pessoal, acompanhadas por uma série de 27 obras de menor dimensão, todas centradas na mesma cadeira. Repetida ao longo da exposição, a cadeira deixa de funcionar como mero objeto compositivo para se tornar um dispositivo simbólico: um espaço de escuta, espera e projeção afetiva. A sua recorrência aproxima a instalação de práticas contemporâneas que utilizam o objeto quotidiano como arquivo emocional, extensão da experiência humana e vestígio da memória.
As conversas gravadas introduzem uma dimensão performativa e relacional, aproximando o trabalho de uma tradição da arte contemporânea interessada na intimidade como matéria política e estética. Aqui, a conversa deixa de ser apenas documento e transforma-se em gesto de cuidado, onde o ato de ouvir se torna parte integrante da obra.
No última obra, a cadeira surge vazia, interrompendo a lógica do retrato e transferindo a responsabilidade do reconhecimento para o espectador. Quem convidariam para se sentar ali, para ser visto, escutado e reconhecido? A exposição constrói, assim, um espaço de reflexão sobre a fragilidade da presença humana e sobre a urgência de expressar afeto antes que a ausência torne esse gesto impossível.
Obras: