Com a participação da artista:
Matilde de Oliveira Roque.
Todos os anos da nossa vida parecem passar cada vez mais depressa, um facto que, por si só, evidencia a nossa conceção imperfeita, embora profundamente enraizada, do tempo. Talvez, por isso, não devamos pensar na idade como um simples número de anos. À medida que avançamos, podemos antes imaginar-nos como um novo ser a cada instante, vendo cada momento infinitesimal pela primeira vez e envelhecendo sem contar. Sempre que abrimos o nosso sentido de identidade no espaço e no tempo, isso “exige a imposição da nossa alma sobre o que nos rodeia” (Beckett, 1930). A criação do mundo acontece assim todos os dias. Não é, como tantas vezes imaginamos, um acontecimento histórico ocorrido algures no passado.
Esta manhã, enquanto tentava uma nova criação do mundo, acordei, adiei o despertador algumas vezes, espreguicei-me na cama, sentei-me, pensei e senti. Dei de comer aos gatos, bebi água de um trago, limpei a caixa de areia, disse bom dia, lavei as mãos, lavei os dentes e o rosto. Pensei em coisas que não posso esquecer. Vesti-me, preparei a minha comida, verifiquei o telemóvel e saí de casa. No metro li; depois escrevi no meu diário. Passei pelo Sainsbury’s, enviei uma mensagem de voz ao S e, já no estúdio, terminei-a. Fiz um chá e meditei à pressa, porque estava com fome. Fico triste ao descobrir que o meu café instantâneo tem bolor e tenho de o deitar fora. Fico triste porque resisti a comprar café para levar no caminho - e agora desejo ainda mais aquilo que já não posso ter.
Cumpri os meus rituais - cumpri mesmo? - ou estarei a esquecer-me de fazer, pensar, acrescentar ou reconhecer algo essencial para a minha felicidade: o ingrediente secreto necessário para viver o dia com todo o meu potencial? Esperemos que não. Entremos, então, em bicos de pés.
Ao longo do dia, o meu diálogo interior narra e tenta ordenar aquilo que se apresenta como uma sequência dispersa de atividades — um conjunto de escolhas incertas no presente que se precipitam num futuro ainda desconhecido. Um futuro que, a cada instante, passa por mim e se transforma em passado. Em cada escolha, “o desconhecido é incognoscível” (Beckett, 1930). Só Deus sabe — e “eu não tenho o seu endereço” (Auster, 1917). Como escreve Samuel Beckett, o “fluido do futuro, lento, pálido e monocromático” decanta para o recipiente do tempo passado, “agitado e multicolorido pelos fenómenos das suas horas” (Beckett, 1930). Eu, o indivíduo, sou o “lugar constante” deste processo.
As minhas pinturas são talvez o resíduo dessa decantação — o líquido áspero e turbulento que se agita durante o processo. Cada imagem torna-se uma breve retenção daquilo que já passou. Uma marca pintada pode conter o gatilho daquilo que Marcel Proust descreve como memória involuntária: a súbita vaga de experiência que surge sem esforço deliberado de recordar, quando o passado regressa abruptamente e é novamente vivido — por vezes com mais precisão do que quando é procurado conscientemente.
Tal como o efeito inquietante de uma Live Photo de iPhone, o trabalho minucioso de pincel nas minhas pinturas transporta um movimento subtil e instável — um tremor que sugere a fragilidade da memória evocada. Coleções familiares e fotografias encontradas são estudadas e coladas para formar algo novo. Para além das representações de pessoas e dos seus contextos, tornam-se reflexões sobre tempo, lugar e existência.
“8–80” significa inconsistência. Mais do que “tudo ou nada”, sugere “um pouco ou muito”, “abundância ou escassez”, ou mesmo “preto ou branco”. Os 72 números inteiros e as infinitas casas decimais entre 8 e 80 constituem uma multiplicidade que representa um vasto desconhecido — um campo de oportunidades, opções e decisões. Cada combinação de dígitos é apenas minimamente distinta, podendo revelar-se melhor ou pior do que a que a precede ou a que se segue. Como garantir que aterramos no lugar certo, algures nesse infinito?
Quando operamos no 80, deparamo-nos frequentemente com a desilusão da própria conquista, pois o nosso ego presente já não se identifica com ela. “Qualquer que seja o objeto, a nossa sede de posse é, por definição, insaciável” (Beckett, 1930).
8–80 fala da nossa aposta constante no jogo da vida. Influenciada pelo ensaio de Samuel Beckett sobre Proust, pelo testemunho de Viktor Frankl em Man’s Search for Meaning e pelo romance 4 3 2 1 de Paul Auster, reflito sobre a procura contínua pela forma como escolho viver. Nem no 8 nem no 80, procuro explorar o que significa existir simultaneamente no passado, no presente e no futuro.
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